Quando já não era muito miúdo e gostava de dizer que os desenhos animados já não eram para a minha idade, passavam na RTP umas fábulas que toda a minha vida disse bem, isto por terem muita moral, serem muito educativos e que, obviamente, me entretiam como o caraças.
Numa parvoíce de quem é saudosista, vi à pouco tempo um episódio dessa animação e, claro, tive uma desilusão pois a primeira história com que dou caras é de uma pequenina pica-pau, toda bonitinha, que se apaixona por uma gralha e cuja moral da história é baseada na ideia que nunca seriam felizes por não serem iguais. Diziam que cada um devia ficar com o par da mesma morfologia e cor, e se bem que é uma ideia gira para se difundir por certos pastores das serras de Portugal, a parte da cor não me pareceu bem. Logo me apercebi que se quero uma boa história, com boa moral e intemporal, tinha de fazê-la eu, e foi assim que nasceram:
As aventuras de Carochedo e Peida-GadochaEra uma vez um rapaz chamado Carochedo. O Carochedo era um bom rapazola, embora um pouco peludo e assim para o gordito. Era tratado pelos amigos pelo Carochedo, o carocha que mete medo. mas de quem todos de uma maneira ou outra gostavam. Estava sempre disposto à farra e muitas vezes fazia-se acompanhar da sua bebida favorita, o leitinho tinto. Bom garfo e apreciador de boa companhia, era mestre no jogo do galo e presença assídua em campeonatos de peixinho.
O Carochedo tinha como grande amiga uma joaninha cujas asas eram mais largas na sua parte traseira, e a quem todos chamavam Peida-Gadocha. Na realidade o nome dela era bastante diferente. Descendente de uma linhagem de joaninhas indianas o seu nome real era Mahatma Ghandi, mas Peida-Gadocha era um nome muito mais sonante… Gostava de chamuças, de dança do ventre e era também grande apreciadora de levedura de aveia, embora fosse alvo de uma curiosa reacção alérgica a cada vez que se deliciava com tal néctar, fazendo com que se deixasse de lembrar das regras básicas das joaninhas: que asa bater primeiro, o caminho de casa e não trincar os amigos (sim as segras das joaninhas são simples e curiosas)
As suas vidas corriam bem e andavam sempre juntos a passear pelos campos floridos, à procura de uma flor mais viçosa para cada um morar. O Carochedo era difícil de agradar, as flores ou eram muito grandes ou muito pequenas, muito novas ou muito velhas, muito frágeis ou muito fortes, enfim nunca estava satisfeito e por isso vivia sempre à procura, já a Peida-Gadocha idealizava uma flor onde pudesse jogar com os amigos aos suga-joaninhas e beber levedura de aveia quentinha antes de se deitar. O Carochedo sabia sempre quando ela não gostava de uma flor, pois ela saía aos saltos a cantarolar nunca, nunca, nunca.
Certo dia, o Carochedo foi ter com a Peida-Gadocha. Chegou a casa da sua amiga, chamou por ela, uma, duas, três vezes mas ela não respondia.
- Que raio anda ela a fazer? Certamente a dormir ou a comer, mas de qualquer forma não me atende!
Insistiu novamente e lá ela apareceu à porta. Estava a dormir, claro!
- Carochedo! A esta hora? Que estás aqui a fazer? Estava tão bem a dormir…
- Oh dorminhoca, andaste outra vez a beber levedura de aveia? Meu Deus dos Bezouros, que carantonha! Olha, despacha-te a lavar as asas e vamos procurar a Dignidade.
A Dignidade era uma lagarta mais velha e muito amiga destes nossos heróis. Dava óptimos conselhos e era muito querida e respeitada pelos seus amigos, sendo muito frequentemente dada como exemplo quando por algum motivo alguma carocha ou joaninha não se portava bem.
A Peida-Gadocha ficou logo toda contente.
–Ena, boa ideia, já tenho mesmo saudades de a ver!
Uma hora e meia depois lá a Peida-Gadocha se despachou e foram os dois muito contentes à procura da Dignidade.
-Dignidade, Dignidaaadddeeeee – Gritavam o Carochedo e a Peida-Gadocha em gritos tão altos que despertou a curiosidade de uma raposa matreira que ali passava.
- Que tanto berram vocês? Estava aqui tão bem descansadinha!
- Andamos à procura da Dignidade. Não a viste? – perguntou o Carochedo.
- Ainda agora a vi. Estava ali ao pé do riacho, se quiserem eu mostro-vos onde.
Estavam para ir atrás da raposa, mas a Peida-Gadocha achou aquilo muito estranho. O riacho não era sitio que a Dignidade gostasse de andar. Nitidamente aquela raposa estava para aprontar alguma, e como ela já tinha tido más experiências com raposas que a queriam comer avisou o Carochedo.
-Carochedo, fica alerta que isto não me cheira bem! Cá para mim esta raposa quer-me comer.
Ora acabava a Peida-Gadocha de dizer isto quando a raposa, já alerta que algum deles tentasse fugir, lhes tentou dar uma dentada. Por sorte desviaram-se a tempo, e a raposa acabou por dar uma dentada numa pedra. Correram com as forças que tinham enquanto ouviam a raposa desdentada, a dizer umas patranhas para que eles parassem jurando que so lhes queria pregar uma partida. Esconderam-se então numa covinha, a rirem-se desalmadamente da figura da raposa sem dentes e a pensarem na sorte que tinham em não lhes ter acontecido nada. Passado algum tempo lá continuaram à procura da Dignidade, mas desta vez a fazerem menos alarde. Acabaram por encontrar uma codorniz amiga que lhes disse que a Dignidade tinha ido visitar a prima Prudência, outra lagartinha muito querida que vivia no outro lado do rio.
O dia chegava ao fim e ainda havia muitas flores para visitar, e lá foram os dois amigos pelos campos floridos, à procura das suas florzinhas especiais.
Eles estavam contentes, tinha sido mais um dia comprido e cheio de aventuras, mas sentiam-se felizes por andarem sempre entre amigos e com a Dignidade bem presente no coração, ainda que não a vissem muitas vezes.